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Um gigante cheio de afluentes

Amazonas: dois terços da água dos rios do mundo

Sabia que cada um dos milhares de tributários do Amazonas, o segundo maior curso de água do mundo inteiro, depois do Nilo, tem as suas próprias variedades de peixes? O que nos explica o facto de existirem só neste rio, ou seja, descontados os restantes braços do complexo sistema hidrográfico que esta região suporta, entre 2.500 a 3 mil espécies distintas de peixes de água doce.

 

Segundo os especialistas, no total deverão existir cerca de 5 mil espécies de peixes de água doce no continente sul-americano. É que embora não seja o maior rio do mundo em comprimento, o Amazonas — juntamente com os seus inúmeros afluentes — transporta a maior quantidade de água entre todos os rios do globo. Um detalhe que, a par das suas imensas florestas tropicais, também converte esta região num dos mais preciosos ecossistemas do planeta.

 

E o Amazonas é a artéria principal deste admirável organismo vivo, tal como a cordilheira dos Andes se apresenta como a espinha dorsal do subcontinente; o seu backbone, digamos assim. É precisamente nos cumes gelados dos Andes que nasce o Amazonas. Ao fundir-se com o começo do calor, essa formidável massa de neve derretida desliza rapidamente pelas encostas do lado ocidental da cordilheira, em gigantescas cascatas, que vão aumentando de caudal à medida que se lhe vão unindo os seus inúmeros tributários.

 

De repente, essa descida vertiginosa das águas através da cadeia montanhosa é travada e praticamente pára: o Amazonas chega finalmente à sua zona plana. Nessa fase, o rio parece acalmar e alargar-se, para passar a inundar uma impressionante área com cerca de 4.800 quilómetros de extensão, que se prolonga até ao Atlântico. Com um declive de somente à volta de 200 metros em toda essa distância, o enorme Amazonas ganha de facto uma aparente serenidade no percurso; afinal, a partir daí, todo o seu gigantesco fluxo de água acaba por beneficiar de um declive que, em média, não excede uns míseros 4 milímetros por cada quilómetro percorrido, numa imensidão de infindáveis curvas e contracurvas que serpenteiam entre a densa floresta húmida.

 

Uma calma aparente

 

É assim a bacia do segundo maior rio do planeta. Mas a verdade é que a acalmia nas águas provocada por toda essa infindável planura é bem mais aparente do que real. Quando chega a época das chuvas, prova-se isso mesmo: nessa altura, o indómito Amazonas galga rapidamente as suas margens e alaga uma parte incrível da floresta que o rodeia, chegando a submergir totalmente árvores com a altura de casas. Em tempo de cheias, que chegam a durar vários meses, a paisagem nesta infindável bacia transfigura-se totalmente.

 

Para estas alterações bruscas de «humor» do Amazonas, se assim o podemos dizer, não é de facto alheia a contribuição dos seus perto de mil tributários perfeitamente identificados, que vão injectando as suas águas na bacia do rio ao longo de todo o ano. Aliás, convém referir que, em média, a área de terreno ocupada pela bacia do Amazonas ronda os 6,2 milhões de quilómetros quadrados.

 

Porém, existe ainda uma outra característica climatérica nesta região que convém mencionar, para se perceber o funcionamento deste complexo ecossistema: é que aqui as estações chuvosas e secas alternam-se, afectando quase que à vez as zonas da bacia do Amazonas que se situam no Hemisfério Norte e no Hemisfério Sul, respectivamente. Como este rio cruza o Equador, durante um determinado período do ano são os afluentes situados a Norte que irrigam a sua bacia mais violentamente, sendo que, chegando o período seguinte, chega também a vez dos tributários do Sul se encarregarem de fazer o mesmo.

 

Feito o balanço, estima-se que o volume global das águas do Amazonas ronde dois terços do volume total da água transportada por todos os rios do mundo. Certo é que para os ictiólogos — e para nós, aquariófilos —, as águas acastanhadas e sempre cálidas do rio Amazonas revelam-se de uma riqueza sem paralelo: os inúmeros pantanais, os poços no meio da floresta tropical, as margens com raízes sumergidas e troncos caídos, são o local onde vivem várias espécies de peixes capazes de encantar qualquer um.

 

Manancial de espécies para a aquariofilia

 

A ampla diversidade de habitats que se podem identificar nesta zona — e recriar nos nossos aquários — abrigam um equivalente manancial de estilos de vida específicos para cada tipo de peixes e de plantas. Até à data, como atrás mencionámos, encontram-se classificadas quase 3 mil espécies endémicas do Amazonas. E não estaremos a exagerar se dissermos que muitas delas se contam entre os mais formidáveis peixes de água doce do mundo.

 

De facto, desde a primitiva — mas elegantíssima — Aruana prateada (Osteoglossum bicirrhosum) até ao fantástico e também pré-histórico Pirarucu (Arapaima Gigas), passando por alguns dos enormes peixes-gato predadores que habitam nos principais canais do rio e afluentes — tome-se os exemplos do Phractocephalus hemioliopterus (vulgo «Red Tail Catfish» ou simplesmente «RTC») ou do Pseudoplatystoma fasciatum —, é aqui que se encontram alguns do maiores peixes de água doce que podem ser criados e mantidos em aquário.

 

Já nos seus pequenos poços de águas escuras, encontramos cardumes de pequenos e coloridos caracinos, enquanto os discos (Symphysodon aequifasciatus) — que para muitos continuam a ser os mais bonitos entre os peixes de água doce — e os escalares (Pterophyllum scalare) preferem lagos mais profundos e abertos, mas onde se podem esgueirar com facilidade entre as raízes e a vegetação.

 

Porém, se o seu gosto pessoal pender mais para o curioso mimetismo dos peixes folha (Monocirrhus polyacanthus), para as estranhas formas achatadas das raias de água doce (Potmotrygon spp.), ou para os ondulantes movimentos do Peixe-faca fantasma (Sternarchella schotti), esteja à vontade. O Amazonas promete manter-se como um tesouro privilegiado no que toca a espécies de peixes e de plantas de aquário de água doce. Se nós o soubermos preservar e proteger, claro.