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Tubarão-baleia

O maior peixe à face da Terra

Apesar do seu tamanho, o «Rhincodon typus» é dos tubarões mais dóceis

É o maior peixe à face da terra, podendo chegar a pesar mais de 20 toneladas e atingir os 18 metros de comprimento, embora o mais comum seja à volta dos 12 a 15 metros. É um viajante dos oceanos solitário por natureza e a sua distribuição geográfica abrange todas as águas tropicais, apesar de também já ter sido visto algumas vezes a aventurar-se em mares temperados. Dotado de uma aparência impressionante, este gigante não representa nenhum perigo para os humanos: aliás, foram já inúmeras as vezes em que mergulhadores nadaram ao lado de tubarões-baleia, com contacto físico directo, tocando-lhes e acariciando-os, sem que fossem molestados. Para que conste, ainda há relativamente pouco tempo uma expedição de mergulhadores portugueses repetiu essa proeza nas águas do arquipélago de Cabo Verde.

 

O tubarão-baleia alimenta-se sobretudo de plâncton, consumindo também peixes minúsculos, como sardinhas e anchovas. Sabe-se que é ovíparo, mas até hoje apenas há registos de um único caso em que foi encontrado um ovo deste enorme peixe, que continha dentro uma réplica perfeita do seu progenitor só que a uma escala muito diminuta: o embrião media somente 36 centímetros. Devido aos seus hábitos alimentares característicos, estas criaturas desempenham um papel vital na manutenção do equilíbrio dos oceanos. Só que a crescente procura da carne e barbatanas do tubarão-baleia para fins comerciais tem também originado a sua caça extensiva. Em Talisayan, Misamis Oriental, nas Filipinas, são capturados todos os anos entre 40 a 100 tubarões-baleia, juntamente com golfinhos e baleias, para serem cortados às postas e vendidos nos mercados local e internacional.

 

Ora a realidade é que é altamente improvável que estes simpáticos gigantes consigam sobreviver aos actuais níveis de caça. Por isso, algumas organizações ambientais têm tentado sensibilizar a opinião pública e os próprios pescadores apoiando actividades baseadas na observação dos tubarões-baleia e até em expedições para mergulhar com eles. É que, ao contrário das baleias, que têm de emergir na superfície para respirarem, estes peixes não, o que faz com que só possam ser satisfatoriamente observados dentro de água. Estas actividades visam promover simultaneamente uma consciência ambiental e providenciar modelos de subsistência alternativos para as comunidades pesqueiras, fazendo-as participarem na preservação destas maravilhosas criaturas.

 

Para se alimentar, o tubarão-baleia filtra uma grande quantidade de água, abrindo a boca e aspirando uma golfada ao seu redor, aprisionando assim um grande número de organismos minúsculos. Essa água é filtrada e devolvida ao exterior através dos seus grandes opérculos, retendo apenas o plâncton. Todavia, quanto aos restantes hábitos desta espécie, designadamente os seus hábitos reprodutivos, ainda se sabe muito pouco. Na costa ocidental australiana, próximo de Ningaloo, no canal entre Mindanao e Camiguin, está a ser desenvolvido um programa de estudo dos tubarões-baleia que todos os anos ali vão entre Fevereiro e April para se alimentarem naquelas águas extremamente ricas em plâncton. Nessa zona já existem também vários programas de observação e de mergulho envolvendo caçadores de tubarões-baleia para os levarem a reconverter a sua actividade.

 

Uma espécie altamente migratória

 

O nome científico do tubarão-baleia é Rhincodon typus (Smith, 1828). Embora já tenha sido avistado em zonas perto da costa, é claramente uma espécie pelágica — ou seja, é um ser que vive no alto mar — e aparenta preferir áreas com uma salinidade de 34.0 a 34.5 ppt onde a temperatura da água à superfície oscile entre os 21 e os 25°C e onde os valores mínimos não desçam abaixo dos 17°C. São estas, muito provavelmente, as condições óptimas para a produção do plâncton de que estes tubarões se alimentam. Os tubarões-baleia vagueiam entre as águas tropicais e temperadas quentes dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, mas são mais frequentemente encontrados numa faixa à volta do equador que se estende dos 30° Norte aos 35° Sul. Como se trata de uma espécie altamente migratória, além de não existirem dados sobre a população existente, torna-se muito difícil para os investigadores avançarem com estimativas fiáveis sobre tendências e mudanças populacionais.

 

Alguns cientistas referem que o que já se nota é que os espécimes acima dos 12 metros começam a ser mais raros e que o peso médio de um exemplar dessas dimensões rondará os 20.400 Kg. Quanto à sua esperança de vida, sabe-se apenas que é uma espécie de vida longa. Um dos detalhes que os investigadores consideram mais curioso no tubarão-baleia é o seu método de filtragem da água para se alimentar, que o converte num verdadeiro especialista no assunto: usa um mecanismo de retenção especial para capturar copépodes e outros crustáceos inferiores, larvas de peixes e restantes componentes nutritivos da sua dieta de sopa plânctónica. Após engolir uma grande quantidade de água, filtra-a nos arcos das guelras e o plâncton fica aí aprisionado, sendo imediatamente encaminhado para o seu esófago. Um método que também funciona quando estes peixes decidem alimentar-se de anchovas, sardinhas, albacoras e pequenas lulas.

 

Apesar de ainda não estarem bem compreendidos os movimentos altamente migratórios do tubarão-baleia, supeita-se que estejam relacionados com as explosões de colónias de organismos plânctónicos, que estes peixes perseguirão. Talvez seja essa também a razão porque eles são sobretudo vistos longe da costa e se aproximem dela só às vezes — chegam inclusivamente a entrar nas lagoas de atóis de coral — e se mantenham geralmente próximo da superfície, onde há mais luz. Embora costumem viajar sózinhos, quando há muito plâncton é usual encontrarem-se vários exemplares, tendo sido já avistados grupos com quase 100 tubarões. Mas os investigadores também admitem que provavelmente os tubarões-baleia passem muito do seu tempo nas profundezas do mar alto, seguindo as correntes submarinas que transportam o plâncton de que eles se alimentam por grandes distâncias. O tubarão-baleia é também frequentemente associado com cardumes de peixes pelágicos, especialmente escombrídeos, como atuns e cavalas.

 

Numa fêmea grávida de tubarão-baleia capturada por pescadores foram encontrados 16 ovos, sendo que cada um media mais de 30 centímetros de comprimento. Um número que indicia uma taxa de reprodução baixa e que ajuda a explicar porque é que esta espécie é relativamente rara. O que se tem constatado é que a densidade populacional de tubarões-baleia tem vindo a baixar, tornando a espécie particularmente susceptível à sobre-exploração. O declínio que já fez notar ao longo da última década, particularmente nos mares da zona das Maldivas, é muito provavelmente resultado de uma caça excessiva. Mas os efeitos da poluição dos oceanos no plâncton, a principal fonte de alimentação destes pacíficos gigantes, também estão na lista dos suspeitos.

 

Bibliografia:

 

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