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Só 5% da grande barreira está protegida

Aquecimento está a matar corais australianos

A grande barreira de coral abrange mais de 2.800 recifes individuais

A culpa é sobretudo do aquecimento global, dizem os cientistas. Mas não só. Já se sabia que o aumento da temperatura estava a provocar efeitos desastrosos nos sensíveis ecossistemas de corais do Indo-Pacífico, mas é na grande barreira australiana que o problema está a assumir proporções verdadeiramente alarmantes: num espaço de tempo incrivelmente curto, os corais começaram a definhar e morrer uns atrás dos outros, como se estivessem num aquário de água salgada que entrasse de repente em desequilíbrio.

 

Os sintomas? Quando as temperaturas do mar ficam demasiado elevadas, os pólipos de coral perder as algas simbióticas que vivem dentro deles e começam a esbranquiçar, ficando super frágeis. Inevitavelmente acabam por morrer, contagiando em cadeia os que os rodeiam. A dimensão do problema? A maioria de nós pensava que a grande barreira de coral era uma maravilha marinha mundial, absolutamente protegida pelo governo australiano mas essa convicção idílica parace estar bem longe da verdade. O ecossistema da área encontra-se todo sob uma enorme ameaça, resultante da actividade humana, que está agora a manifestar-se sob inúmeras formas, a maioria delas ainda não satisfatoriamente compreendidas pelos cientistas.

 

Para os mais desatentos, refira-se que os recifes de coral são o habitat de mais de 25% de toda a vida marinha e contam-se entre os mais frágeis e ameaçados ecossistemas do planeta. Só nas últimas três décadas, o Homem destruiu mais de 1,4 milhões de hectares de recifes de coral, sendo que os recifes do litoral de 93 países foram severamente afectados pela actividade humana. Ou seja: se esta taxa de destruição se mantiver inalterada, a maioria dos recifes de coral do mundo inteiro poderá morrer em cerca de 40 anos e 70% desaparecerão durante as nossas vidas. O arquipélago das Maldivas, por exemplo, que assenta todo ele sobre uma plataforma sustentada por bancos de corais, corre sérios riscos de desaparecer totalmente ao longo das próximas três décadas.

 

Um organismo «vivo» que se vê do espaço

 

E a grande barreira de coral australiana, que é o único organismo «vivo» terrestre visível do espaço, com uma área superior à do Reino Unido e mais extensa que a costa oeste dos Estados Unidos, que lhe acontecerá? Apesar de ser inquestionavelmente uma das mais importantes das 552 áreas do globo catalogadas como património mundial — e das raras que preenchem os quatros critérios exigidos nesta classificação para inclusão como zona de invulgar beleza e com rica diversidade biológica, pois abrange mais de 2.800 recifes individuais —, somente menos de 5% da área classificada recebe de facto total protecção.

 

Segundo as principais organizações ambientalistas, no resto da barreira a fiscalização é ineficiente e as ameaças sucedem-se. Em muitas zonas continua a haver capturas com recurso a processos de pesca ilegais e numa escala insuportável — designamente capturas de camarão utilizando o método de arrasto, em que são caçados por ano até dez vezes mais animais do que os que nascem para repor as populações —, fazendo com que inúmeras tartarugas marinhas de espécies ameaçadas acabem por morrer presas nessas redes e enormes áreas do fundo do mar sejam irremediavelmente destruídas.

 

Outro dos principais problemas é a poluição: ano após ano continuam a ser depositados na lagoa do recife milhões de toneladas de sedimentos e químicos provenientes do mar aberto, que provocam a ruptura de partes essenciais dos sensíveis ecossistemas do recife. O equilíbrio desses ecossistemas é tão frágil, que os cada vez mais frequentes derrames de crude causados pelos petroleiros — que continuam também a lavar os seus porões no alto-mar daquela zona — têm devastado áreas gigantescas da lagoa. Aliás, os cientistas acreditam que este tipo de poluição estará também intrinsecamente relacionado com o processo de auto-destruição dos corais.

 

Como se tudo isto não bastasse, o desenvolvimento urbano e industrial nas zonas costeiras do recife tem vindo igualmente a acentuar-se ao longo das últimas décadas de uma forma acelerada. Existem cada vez mais fábricas ao longo da costa da região de Queensland e está previsto que o desenvolvimento industrial se mantenha nos próximos anos. Entre os efeitos perniciosos deste desenvolvimento, particularmente do acréscimo de indústrias, vastas áreas de terrenos alagados com água doce, que funcionavam como massas filtrantes naturais, ajudando a controlar os níveis de depósito de sedimentos na lagoa, já se perderam.

 

Por último, mas não menos grave, o crescimento das povoações e o aumento do turismo verificados na região ao longo dos últimos anos estão a exercer uma pressão cada dia maior no delicado equilíbrio da grande barreira de coral, juntando-se às múltiplas ameaças a que aqueles ecossistemas já se encontravam expostos. Perante isto, as principais organizações ambientais mostram-se muito preocupadas com o futuro da fantástica maravilha da natureza que é o maior recife de corais do globo e admitem não haver forma de determinar com exactidão a extensão dos estragos que até à presente data já foram cometidos na grande barreira e nas criaturas que ali vivem.

 

Os recifes da grande barreira contém pelo menos 1.500 espécies de peixes, 350 tipos de corais e 4.000 variedades de moluscos. Além disso, seis das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo vivem ali. O Marine Park, que fica em plena zona protegida, é onde habita a maior e mais importante — mas, ainda assim, também ameaçada de extinção — população de dugongos. Apesar de albergar um ecossistema múltiplo, com claras diferenças entre os seus recifes, a grande barreira funciona como uma entidade totalmente interactiva, ligando as criaturas marinhas aos corais, fundos de relva marinha e praias de areias coralinas e os mangais com os estuários dos rios que ali desaguam.