Pesquisa

Ciclo do azoto
O «Symphysodon aequifasciatus» exige uma muito boa qualidade da água

Como funciona a filtragem biológica? A resposta é muito simples: tal e qual como todos aprendemos no liceu, nas aulas de Biologia, quando estudámos o «ciclo do azoto». De facto, falar de um aquário bem sucedido é virtualmente o mesmo que falarmos de um ecossistema vivo. Em todos os ecossistemas naturais há uma parte que envolve a acção de micro-organismos e reacções químicas. Ora um filtro biológico eficiente é considerado por muitos aquariófilos o mecanismo de filtragem mais importante do ecossistema do aquário, uma convicção com a qual estamos totalmente de acordo.

 

Um filtro biológico é um filtro que implica a propagação e retenção de milhões e milhões de bactérias aeróbicas e anaeróbicas. No nosso aquário, costumamos prestar mais atenção às bactérias nitrificantes aeróbicas, as Nitrosomonas e as Nitrobacter. Estas bactérias estão em todo o lado e desenvolvem-se na água onde exista oxigénio e disponham em abundância das suas fontes de alimento específicas, como a amónia (NH3) e os nitritos (NO2).

 

  A amónia e os nitritos num aquário novo
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|                    <--   as nitrobacter    -->|
|                          multiplicam-se       |
|                             _ _ _ _ _         |
|<-- as nitrosomonas  -->    /                 |
|     multiplicam-se        /   nível          |
|      _ _ _ _ _ _         /  de stress        |
|     /                  /  de nitritos       |
|    /    nível         /      (NO2)          |
|   /  de stress de    /-------------------   |
|  /   amónia (NH3)   /                       |
| /-------------------/                       |
|/                   /                        |
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 Dias    10        20        30        40      50 

 Nota: após a montagem do novo aquário, a amónia 
 começa logo a aumentar, subindo para níveis que 
 provocam stress aos peixes em poucos dias. Essa 
 amónia facilita uma multiplicação das bactérias 
 do género nitrosomonas, que se alimentam dela e 
 a processam, convertendo-a em nitritos. Por seu 
 lado, quando os nitritos se começam a acumular, 
 facilitam a multiplicação das bactérias do tipo 
 nitrobacter, que os convertem em nitratos. Este 
 ciclo é a base dos filtros biológicos. Contudo, 
 nas fases intermédias, enquanto ainda não há um 
 número de bactérias benéficas suficiente para a 
 quantidade de detritos produzidos pelos peixes, 
 o risco de mortes por intoxicação é elevado. Na 
 prática, a melhor maneira de evitarmos que isso 
 venha a suceder é adicionarmos novos peixes aos 
 poucos e com intervalos de uma semana ou mais

 

Para os iniciados, ouvir falar da propagação de bactérias e da criação de um ecossistema biologicamente activo dentro do aquário pode parecer um processo complicado, mas na realidade é bem simples de criar, com as condições, o equipamento e os animais e vegetais adequados. Ou seja, essas bactérias são adicionadas ao tanque pelo simples facto de se lá colocarem peixes e plantas. Elas vivem atreladas aos corpos, bocas e guelras dos peixes e de todos os outros organismos vivos que pusermos no aquário.

 

Logo após se introduzirem no aquário, essas bactérias começarão, aos poucos e poucos, a largar os corpos dos respectivos anfitriões e a espalharem-se por todo o sistema. Onde quer que encontrem água rica em oxigénio – nomeadamente junto aos filtros, onde ela circula com mais força ?, irão constituir densas colónias e multiplicar-se. A amónia existente no aquário irá ser transformada por essas bactérias em nitritos, o que é bom porque a amónia é altamente tóxica, muito mais tóxica do que os nitritos. O único problema do processo nesta fase inicial é que os peixes produzem também muito mais amónia do que a quantidade que essas bactérias conseguem processar...

 

Serão precisas no mínimo duas a três semanas antes que haja uma quantidade suficiente de bactérias no aquário, capazes de processar toda a amónia produzida pelos peixes que lá colocarmos no início. Claro que este período também depende da quantidade de peixes que tivermos posto, pelo que é sempre boa ideia ir povoando aos poucos e poucos o aquário para não estragarmos o frágil equilíbrio, ainda em formação. Convém é nunca esquecer que a amónia é um veneno letal para os peixes, uma espécie de "inimigo número um".

 

Paciência: um factor essencial e que não se compra

 

Se não tivermos paciência na fase de arranque do aquário, a amónia produzida pelos peixes pode subir facilmente para níveis as bactérias não sejam capazes de compensar e os peixes serem vitimados pelas substâncias tóxicas geradas pelos seus próprios detritos. Uma "regra de ouro" é ir adicionando os peixes gradualmente – é muito importante nunca esquecer isto! ?, pois as bactérias nitrificantes benéficas que suportam a filtragem biológica podem demorar vários meses até se estabelecerem totalmente.

 

Durante as primeiras semanas, desenvolvem-se sobretudo bactérias nitrificantes do género Nitrosomonas, que consomem a fatal amónia (NH3) e transformam-na em nitritos (NO2), os quais, embora menos mortíferos para os peixes não deixam de ser também letais. Quando o nível de nitritos começa a crescer, chega a vez de entrarem em acção as bactérias do género Nitrobacter, que convertem os nitritos em nitratos (NO3). Ou seja, em traços gerais podemos dizer que num aquário de água doce este ciclo nunca se completa de forma satisfatória antes de 5 a 6 semanas, enquanto num de água salgada pode oscilar entre os 5 e os 6 meses.

 

Todavia, estes são os períodos mínimos, digamos assim, para que aqueles dois químicos tóxicos que se encontram em todos os aquários recém-montados possam descer para níveis aceitáveis, níveis que já não representem perigo para a vida animal dentro do aquário. O que não equivale necessariamente a dizer que o aquário já se encontra em excelentes condições; significa apenas que ele já está com o seu ciclo biológico equilibrado. Os nitratos (NO3), o bi-produto final resultante da transformação daquelas duas substâncias pelas bactérias nitrificantes, além de não se afigurarem tóxicos para os peixes a não ser em quantidades elevadas – algo que demora muito tempo ?, podem ser parcialmente absorvidos pelas plantas, funcionando como adubo.

 

Em todo o caso, devem-se remover periodicamente os nitratos, não deixando que se acumulem. Isso pode ser feito de duas maneiras: por processos químicos ou, como é mais usual, através de simples mudanças parciais da água do aquário feitas regularmente. Nessas mudanças aspira-se o fundo e substitui-se a água velha com água tratada. Por água tratada entende-se água sem cloro nem metais pesados, à mesma temperatura da outra e com o pH e dureza – e a salinidade, no caso dos aquários marinhos – apropriados. É sempre preferível que se mude pouca água nestas mudanças, substituindo-se 25% do total, por exemplo, e que elas sejam frequentes, de duas em duas semanas, por exemplo, do que mudar metade da água de mês a mês...

 

Controlar os níveis de nitratos e fosfatos

 

Para sermos realistas, níveis elevados de nitratos podem matar facilmente os peixes. Aliás, tudo indica que os aquariófilos de água salgada prestam mais atenção aos nitratos que os de água doce, mas isso pode revelar-se um erro fatal para estes últimos. Níveis de nitratos altos num aquário – tal como níveis elevados de fosfatos – provocam facilmente um ambiente pouco saudável e que muitas vezes não é fácil de diagnosticar através da pura observação.

 

No entanto, não devemos tentar retirar totalmente os nitratos do nosso aquário, além de que nunca iríamos consegui-lo. Eles são o resultado natural da decomposição da amónia e dos nitritos e um nutriente importante para as plantas, só se tornando tóxicos em concentrações elevadas. Assim, a nossa preocupação será manter sempre esses níveis reduzidos.

 

Os seguintes pontos são essenciais para atingirmos esse objectivo:

 

  • Nunca sobrepovoar o aquário
  • Não dar comida a mais aos peixes
  • Manter o tanque limpo, aspirando o fundo e removendo sempre folhas mortas de plantas, peixes mortos e caracóis
  • Efectuar mudanças parciais de água com regularidade

 

Nos tempos que correm existem filtros biológicos dos mais variados tipos e é fácil encontrá-los em qualquer loja da especialidade. Muitos deles incorporam igualmente outros géneros de filtragem. Entre os chamados biofiltros mais comuns temos os filtros de placa para colocar debaixo do areão, os filtros de esponja, os filtros com bio wheels, os filtros de gotejo, os filtros exteriores de balde, os filtros de camas fluidificantes, etc.

 

Já nos aquários marinhos de recife, a utilização no sistema de "rocha viva" – e até de "areia viva" – também funciona como coadjuvante da filtragem biológica e é uma solução que tem vindo a tornar-se cada vez mais popular entre nós, sobretudo ao longo da última década. Mas o que convém reter quando se equaciona a questão da filtragem biológica é que todos os aquários são um ambiente único, diferente de qualquer outro, pelo que cada um tem também um conjunto de exigências e necessidades próprio, sem igual...

 

Por isso, conforme a sua dimensão, a sua capacidade de filtragem, o seu débito de água, alguns filtros podem ser os mais apropriados para uns aquários mas já não o serem para outros... É certo que o mais importante é deixarmos criarem-se as condições para o equilíbrio biológico, mas o filtro que escolhermos deve estar ajustado a essas necessidades. Depois disso, depois do nosso filtro biológico estar estabelecido, uma manutenção cuidadosa do aquário será essencial para manter o equilíbrio, evitando a acumulação em excesso de nitratos e de fosfatos. Neste domínio, para se estar sempre tranquilo, o melhor será adquirir um kit para testar os níveis de nitratos, algo que se encontra em qualquer loja da especialidade.