Pesquisa

Noruega e Japão insistem nas capturas
A IWC recusou propostas para criar dois novos refúgios no Pacífico Sul

O braço-de-ferro à volta da defesa das baleias, uma pretensão que há várias décadas tem sido negada por países como o Japão, a Noruega e a Islândia - os três maiores caçadores destes mamíferos à escala global - começa a ameaçar seriamente o papel da International Whaling Commission (IWC) no processo, uma vez que esta entidade deveria supostamente funcionar como a autoridade mundial para a gestão dos cetáceos. De facto, logo na abertura da 53ª reunião anual da IWC, que este ano teve lugar no Reino Unido, em Londres, e onde se fizeram representar 43 países, ficou claro que as posições destes três países não trarão nada de novo para os próximos tempos.

 

Na verdade - como aliás os mais pessimistas já previam... -, o que se pode constatar foi que os seus delegados quiseram tentar, de forma concertada, aproveitar o encontro para levantar a proibição de caça às baleias. Proposta que felizmente esbarrou na intransigência de países como a Austrália e a Nova Zelândia, cujos representantes anunciaram que os respectivos governos insistem, pelo contrário, no reforço das medidas protectoras e na criação de novos santuários de cetáceos no Pacífico Sul. Uma iniciativa louvável - já apresentada no ano passado -, mas que só produziria efeitos práticos se todos os países da zona, incluindo os sul-americanos, aderissem ao projecto e implementassem mecanismos de controlo eficazes... De qualquer modo, a proposta voltou a ser rejeitada...

 

Todavia, além de se revelar incapaz de lidar com a complexa teia de interesses económicos e ambientais dos seus membros, a IWC tem agora um novo motivo para se preocupar, pois vieram a lume novos dados que denunciam objectivamente a dimensão da ameaça a que as baleias estão sujeitas hoje em dia: o acréscimo da poluição está a contribuir para pôr em perigo a sobrevivência de todas as espécies, sem excepção. Um relatório produzido pelo World Wildlife Fund (WWF) prova que todas as espécies de baleias - e não apenas as 7 espécies que correm risco de extinção, das 13 existentes - estão a ser confrontadas com o ataque mortífero e sistemático dos efluentes químicos e dos pesticidas que os países industrializados continuam a lançar no mar.

 

Mas serão só as baleias as vítimas desta ameaça? Claro que não, pois também praticamente todos os outros organismos que vivem nos oceanos estão a ser dizimados com a poluição. Só que, devido às enormes quantidades de gordura que precisam de armazenar, as baleias contam-se inquestionavelmente entre os mais afectados. Isto porque essas substâncias poluentes se fixam particularmente nas células gordas, ou seja, alojam-se na gordura dos cetáceos e são posteriormente transmitidas aos filhotes através do leite materno de que eles se alimentam nos primeiros anos. Além de que, com o tempo, essas substâncias químicas causam sérias disfunções nos sistemas imunitário, nervoso e reprodutivo das baleias.

 

Várias espécies no limiar da extinção

 

Os autores do relatório do WWF - intitulado «Wanted Alive! Whales in the Wild» - salientam ainda que esta ameaça tóxica é uma certeza na altura em que as baleias lutam por recuperar de séculos a fio de um impiedoso massacre. E se certas espécies conseguiram escapar à justa da extinção - como sucedeu com a baleia negra do Atlântico -, outras já praticamente desapareceram. Das baleias cinzentas, por exemplo, restam hoje apenas entre 100 a 200 na parte ocidental do Pacífico Norte. Todavia, na opinião de Elizabeth Kemf, co-autora do relatório, não são só as baleias que estão ameaçadas por estes novos perigos, pois o risco recai na mesma proporção sobre os que comem a sua carne.

 

Entre as grandes causas de morte não-natural das baleais contam-se as colisões com os barcos, os ferimentos causados pelas redes de pesca, a exploração do gás e do petróleo em plataformas off-shore nas zonas em que elas se alimentam, a degradação dos habitats e as mudanças climatéricas. Além disso, em cada ano são mortas mais de 1.000 baleias, apesar da interdição à sua caça, que entrou em vigor em 1986. Depois dessa data, de acordo com os números oficiais, foram mortas 21.573 baleias. Para as proteger, o WWF preconiza uma forte redução dos níveis da poluição marinha, o controlo internacional da caça, o banir de abates para fins científicos, a eliminação de «fábricas» em alto mar e a proibição da venda da sua carne.

 

Para tentar compensar as quebras de receitas decorrentes dessas actividades, o WWF encoraja as acções do tipo «observação das baleias», desde que se tenham os devidos cuidados ecológicos. Só no ano passado, foram mais de 9 milhões de pessoas, provenientes de 87 países, que se dedicaram a este tipo de programas, gerando um lucro global de 1 milhão de dólares, o dobro da quantia obtida seis anos antes. Segundo os cálculos do WWF, tomando como exemplo a economia islandesa a exploração turística da actividade de observação das baleias daria mais lucros do que uma eventual retoma da sua caça comercial. Recorde-se que durante a última década o número de pessoas que se deslocam à Islândia para observar baleias subiu de 100 para 44 mil. Mesmo assim, a Islândia é dos países que concordam com a retoma das capturas.

 

Para quando a abolição da caça?

 

Embora a interdição da caça à baleia aparente continuar a ser o tema principal de discussão entre os membros da IWC, esta entidade não é poupada pelas críticas vindas do exterior. Na opinião dos responsáveis da Greenpeace existem diversos indícios de que a IWC poderá estar em vias de se orientar perigosamente para a retoma da caça comercial às baleias. Entre as acusações mais duras está a de que o Japão terá «comprado» a opinião de outros países através da concessão de ajudas ao desenvolvimento, algo que este país não nega. Recorde-se que o governo nipónico tem contornado a decisão internacional de proibição da caça, invocando que ela se justifica dadas as «pesquisas científicas» que necessita continuar a fazer.

 

Também a Noruega não ratificou, por seu turno, a convenção internacional, tendo recomeçado a caça em 1993, embora alegando que seria unicamente para fins comerciais no seu mercado interno. Mas desde então já mudou claramente o seu discurso, tendo-se manifestado mais recentemente disposta a retomar as exportações. Só para dar uma ideia da quantidades de animais afectados pela recusa destes dois países em abolir a caça, refira-se que as suas quotas nacionais de cetáceos representam muitos milhares de baleias que são mortas no total em cada ano. O que equivale a dizer que os refúgios existentes ainda são insignificantes para que possam alimentar-se ilusões sobre a recuperação das espécies que se encontram mais ameaçadas.

 

Quem também se manifestou favorável à criação de um «santuário de baleias» no Atlântico Sul foi o Governo brasileiro, tendo apresentado uma proposta nesse sentido. Que também foi chumbada. O projecto foi apresentado aos representantes presentes no encontro da IWC e o novo «santuário» deveria abranger toda a área do Atlântico que vai desde a linha do Equador até ao paralelo 40, precisamente onde se inicia o «santuário» Antártico. A ideia seria estabelecer uma área de preservação envolvendo a costa atlântica da América do Sul até à África do Sul. Caso a proposta brasileira fosse aprovada, as baleias que frequentam essas águas teriam protecção global em todo seu ciclo migratório.

 

Actualmente existem duas grandes áreas designadas pela IWC como «santuários de baleias»: uma é no Oceano Índico e a outra nos mares que circundam a Antártida. Entre os países que apoiaram a proposta brasileira contaram-se a Argentina, a Áustria, a Austrália, a Itália, os Estados Unidos, a Nova Zelândia, o Mónaco, a Holanda e o Reino Unido. Só que eram necessários três quartos dos votos para a aprovação. Recorde-se que a moratória aprovada pela IWC para travar a caça às baleias foi motivada pelo inegável declínio de várias espécies de baleias, como as Minke, as Sei, as Bryde, as Fin, as baleias francas e as baleias azuis.