Pesquisa

Recifes de coral
A extensão das complexas simbioses nos recifes ainda está por descobrir

A importação de corais e de «rocha viva», bem como de outras espécies de recife - embora para nós, aquariófilos, se traduza num prazer irresistível -, representa nos dias de hoje um inegável ataque aos ecossistemas de onde eles são retirados. Bastará por exemplo referir que um número muito considerável de espécies de coral se encontram presentemente listadas pela CITES-Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora, no Apêndice II, onde se incluem categorias de animais e vegetais que ainda não se encontram necessariamente em risco de extinção, mas que poderão vir a estar se o seu comércio não for rigorosamente controlado.

 

Nos termos da convenção, todo o comércio à volta das espécies contempladas por esta categoria deverá sempre depender de autorizações de exportação, com vista a assegurar-se a supervisão e um efectivo controlo das transacções internationais em que estejam envolvidas. Perante isto, muitas nações - como os Estados Unidos e a Austrália, por exemplo -, já decidiram interditar a recolecção ou exportação de corais com o objectivo de tentar limitar ao máximo as graves ameaças a que os seus recifes coralíferos estão expostos.

 

O problema é que, infelizmente, na maioria dos casos esta restrição é só para consumo interno e não se aplica às importações de coral provenientes de outras regiões onde a sua recolha é permitida, como sucede na Indonésia e na Papua Nova Guiné. Ora a verdade é que é precisamente nessas áreas que a destruição de recifes tem sido mais devastadora. Ou seja, a aparente preocupação das autoridades norte-americanas sobre a preservação dessas espécies acaba por esgotar-se nos exemplares que se encontrarem nos recifes dentro da suas fronteiras...

 

Além disso, muito coral apanhado em países onde a recolha é ilegal - como sucede nas Filipinas - é frequentemente vendido e até exportado sob o pretexto de que foi legalmente recolhido num outro país. E como se a apanha do coral não bastasse, há inúmeras outras espécies endémicas dos recifes coralinos que continuam a ser vendidas como «souvenirs» aos turistas ou exportadas para aquários privados, incluindo bivalves gigantes, conchas, gorgónias, peixes-balão, cavalos marinhos, estrelas do mar, ouriços, esponjas e «rocha viva» coberta com lapas tropicais ou outros tipos de crustáceos.

 

Pôr um travão na destruição

 

Destes, apenas certos moluscos gigantes se encontram protegidos sob o Apêndice II da CITES... E embora existam quase sempre algumas regras locais tendentes a regular a recolha de um pequeno número destas espécies, quase nunca são suficientes para prevenir as importações por parte de países como os Estados Unidos e os da Europa Ocidental, por exemplo.

 

Perante a constatação de que a recolha dessas preciosidades dos recifes do Indo-Pacífico, para «souvenirs» e para aquários domésticos ocidentais, tem vindo a aumentar em grande escala nos últimos anos, várias organizações ambientalistas internacionais começaram agora a sensibilizar a opinião pública de que essa tendência não só é fortemente prejudicial para as populações das espécies a que esses indivíduos pertencem, como pode igualmente prejudicar todo o ecossistema do recife de coral de uma forma que estaríamos longe de imaginar.

 

A sua argumentação é basicamente esta: se quisermos que os habitantes dos recifes coralíferos sejam efectivamente protegidos, será necessário implementar medidas de controlo mais apertadas sobre o comércio dessas espécies e serão igualmente precisas leis mais abrangentes. Aliás, no caso dos Estados Unidos já existem propostas para que o coral importado seja restringido a fins muito específicos, como a pesquisa científica e os aquários públicos.

 

Já por cá, se nos é permitido o sarcasmo do àparte, suspeitamos que esse critério não seria o melhor: a maior parte dos aquariófilos que conhecemos consegue manter os seus tanques de água salgada mais saudáveis do que os do Oceanário... Mas continuemos: ao que tudo indica, o caminho será banir o comércio de corais e de animais e plantas dos recifes, embora admitindo excepções em que seja seguro de que provêem de um programa de controlo sustentado.

 

Mas a grande questão é que, na realidade, a captura de espécies vivas para aquários acaba por ser uma gota de água nos esforços tendentes à resolução do grave problema da destruição dos recifes. Técnicas como a pesca com recurso a cianeto e a explosivos, que continuam a ser usuais nos mares do Sudeste Asiático, acabam por ser muitíssimo mais demolidoras do equilíbrio desses ecossistemas, já para não falar da poluição causada pelo turismo ou dos derrames intencionais de crude pelos superpetroleiros em alto mar, quando lavam os seus tanques...