Pesquisa

Celacanto
Um sobrevivente de valor inestimável para inúmeros ramos da ciência

Porque é que o celacanto, um único peixe entre as mais de 26 mil espécies de seres vivos existentes nos dias de hoje no nosso planeta, consegue congregar em si todas as atenções de zoólogos e paleontólogos de todo o mundo? De facto, bastou a notícia de que tinha sido descoberta na costa oriental da África do Sul a terceira colónia de celacantos conhecida em todo o globo e este peixe foi de imediato catapultado para as primeiras páginas dos principais meios de comunicação internacional...

 

A resposta é muito simples: enquanto os dinossauros apareceram há cerca de 250 milhões de anos - tendo vivido e evoluído no espaço de 180 milhões de anos, o tempo que corresponde à Era Mezóica, onde se incluem os períodos Triássico, Jurássico e Cretácico -, acabando por se extinguir há cerca de 65 milhões de anos, o celacanto apareceu há 400 milhões de anos e ainda por cá anda. Está vivo e (pelo menos por enquanto) cheio de saúde... O nosso contacto inicial com este peixe pré-histórico foi na sua forma fóssil, quando o cientista francês Louis Agassiz achou o primeiro, em 1839.

 

Desde a descoberta do primeiro fóssil por Agassiz - cientista cujo nome é certamente familiar para muitos aquariófilos (Apistogramma agassizii, Corydoras agassizii, etc) -, inúmeros outros fósseis foram registados, revelando que ao longo dos tempos houve mais de 120 espécies de celacantos, que entretanto se teriam extinguido todas. Esses fósseis recuavam até há 400 milhões de anos, até à Era Palezóica, mais concretamente ao período Devónico, em que os peixes dominavam os mares e rios e ainda não existia nenhum tipo de vertebrados terrestres.

 

Os fósseis de celacantos revelavam que eles haviam existido em todos os continentes e oceanos excepto nos da Antártida e que cerca de um terço deles viviam em água doce. Quase todas as espécies de celacantos extintas eram de pequenas dimensões, com menos de 55 centímetros de comprimento; o maior seria um gigante de 5 metros encontrado no Texas, nos Estados Unidos. Na África do Sul, tinham sido unicamente registados dois fósseis de celacanto.

 

Dos pântanos para a terra?

 

Muitos dos celacantos mais antigos viviam em pântanos pouco profundos e alguns cientistas acreditam que terão sido precisamente esses a dar origem aos primeiros anfíbios e a todos os quadrúpedes terrestres. Todavia, pesquisas recentes sugerem que terá havido uma evolução intermédia e que os celacantos serão ainda ancestrais dessas criaturas. Existem igualmente divergências de opinião sobre se os celacantos serão mais próximos dos peixes teleósteos ou dos cartilagíneos, embora a maioria dos especialistas defenda a primeira destas teses.

 

Os celacantos atingiram a sua maior diversidade há cerca de 250 milhões de anos - altura em que terão chegado a coexistir pelo menos 30 espécies distintas -, quando os primeiros dinossauros ainda estavam a começar a evoluir. Contudo, o registo fóssil dos celacantos terminava abruptamente há cerca de 65 milhões de anos. Ou seja, já bastante depois dos dinossauros e inúmeros outros grupos animais terem morrido em massa e desaparecido da face da Terra, fenómeno que se estima ter ocorrido há cerca de 80 milhões de anos.

 

Foi por isso uma grande surpresa quando um celacanto foi capturado ao largo de East London, na África do Sul, em 1938. Para a comunidade científica, foi algo equivalente a encontrar um dinossauro vivo... De início, pensou-se que essa relíquia viva de um grupo de peixes ancestral iria abrir-nos uma janela privilegiada sobre o passado, mas pelos vistos o celacanto dos tempos modernos tinha uma ideia diferente. Embora a sua anatomia externa seja muito similar à que possuíam os seus irmãos de há 400 milhões de anos, a sua anatomia interna, a sua fisiologia e o seu comportamento são de um peixe moderno, detentor de um sistema orgânico altamente especializado.

 

Os celacantos já eram vivíparos há 200 milhões de anos, muito antes de surgirem os mamíferos. O celacanto dos tempos modernos não é por isso nenhum elo que faltava - não é nenhum «missing link» -, mas um sobrevivente altamente especializado com adaptações únicas aos desafios colocados pela Natureza. É o único representante vivo de um grupo muito antigo de peixes que precederam de longe a maior parte dos outros peixes e topos os vertebrados terrestres. Nenhum outro animal vertebrado, excepto talvez os modestos e também pré-históricos peixes pulmonados, possui um «pedigree» evolutivo como o do celacanto.